Erasmo Carlos é enquadrado pela lente cor-de-rosa de filme de linguagem pop

por:em fevereiro 18, 2019

Filme que entrou em circuito neste fim de semana, Minha fama de mauoferece recorte bem específico sobre a vida de Erasmo Carlos.

Em vez de traçar um completo perfil biográfico deste pioneiro do rock brasileiro que está em cena há quase 60 anos, o diretor Lui Farias põe em foco o despertar do cantor e compositor carioca para a música (através do rock) e a fase de ascensão no reino encantado da Jovem Guarda.

A narrativa cobre período que vai de 1958 a 1968, ano do fim da Jovem Guarda e da retomada do ritmo intenso da parceria de Roberto Carlos com Erasmo após ruptura que leva o protagonista do filme a um crise existencial e profissional – mote da única parte densa do roteiro assinado por L.G. Baayão e Letícia Mey com o próprio Lui Farias.

Após briga motivada pelo fato de Erasmo não ter dado o devido crédito a Roberto em programa de TV, a parceria dos compositores foi reaberta a rigor em outubro de 1967 quando Roberto acenou com a bandeira branca ao convidar o Tremendão para escrever a letra do rock Eu sou terrível, carro-chefe da trilha sonora do filme Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968), dirigido por Roberto Farias, pai de Lui.

Cartaz de 'Minha fama de mau', filme estrelado por Chay Suede no papel de Erasmo Carlos — Foto: DivulgaçãoCartaz de 'Minha fama de mau', filme estrelado por Chay Suede no papel de Erasmo Carlos — Foto: Divulgação

Cartaz de ‘Minha fama de mau’, filme estrelado por Chay Suede no papel de Erasmo Carlos — Foto: Divulgação

Como Erasmo Carlos se agigantou como artista a partir da década de 1970, o filme Minha fama de mau termina sem dar conta da grandeza do protagonista. Para quem porventura não conhecer o desenrolar da história de Erasmo, fica a sensação de que o Tremendão era artisticamente dependente de Roberto.

Contudo, em filme narrado com a leveza de produções moldadas para uma Sessão da Tarde, mais parece valer a tentativa de entreter com roteiro pontuado por números musicais que retratam a explosão de Erasmo, Roberto e Wanderléa no apogeu da Jovem Guarda.

Nessa fase da narrativa, os atores Chay Suede, Gabriel Leone e Malu Rodrigues assumem o protagonismo do filme. Como o trailer do filme já havia sinalizado, o franzino Chay Suede surge na pele de Erasmo sem o physique du rôle para convencer fisicamente como o protagonista, robusto desde a juventude. Chay compensa com o notório talento de ator a falta de adequação física ao papel.

Já Gabriel Leone, ator igualmente talentoso da nova geração, soa totalmente convincente como Roberto Carlos. A prosódia da fala e o olhar triste de Leone no filme são detalhes (nem tão pequenos…) que valorizam a interpretação minuciosa do ator.

Gabriel Leone, Malu Rodrigues e Chay Suede protagonizam o filme 'Minha fama de mau' — Foto: Páprica Fotografia / DivulgaçãoGabriel Leone, Malu Rodrigues e Chay Suede protagonizam o filme 'Minha fama de mau' — Foto: Páprica Fotografia / Divulgação

Gabriel Leone, Malu Rodrigues e Chay Suede protagonizam o filme ‘Minha fama de mau’ — Foto: Páprica Fotografia / Divulgação

Excelente cantora, Malu Rodrigues valoriza os números musicais de Wanderléa e dá conta como atriz do pouco que lhe é exigido (o jogo de sedução entre Wanderléa e Erasmo é mostrado de forma superficial no filme). Coadjuvante importante quando a ação inicial se passa na Tijuca, bairro da adolescência de Erasmo, o esquentado Tião – futuro Tim Maia (1942 – 1998) – também é retratado de forma crível na pele do ator Vinicius Alexandre.

Com linguagem pop enfatizada na parte inicial com recursos gráficos das histórias em quadrinhos, o filme Minha fama de mau embaralha estéticas cinematográficas ao longo do roteiro sem sair totalmente do enquadramento televisivo.

Artificiais, os comentários dirigidos ao espectador pelo protagonista interrompem o já fluido fluxo narrativo e destoam da opção mais conceitual de escalar uma atriz, Bianca Comparato, para o papel de quatro mulheres que cruzam a vida de Erasmo.

Como o diamante do título de outro filme feito por Roberto Farias com o trio protagonista da Jovem Guarda, Minha fama de mau é cor-de-rosa. Por isso, devem ser aceitas licenças poéticas e musicais como a evocação instrumental de Azul da cor do mar (Tim Maia, 1970) fora da ordem cronológica e como o uso da canção Amigo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), de 1977, para reforçar os laços de fraternidade que, de certa forma, sempre uniram Erasmo Carlos e o irmão camarada Roberto Carlos.

Chay Suede driba com o talento de ator o físico inadequado para interpretar Erasmo Carlos  — Foto: DivulgaçãoChay Suede driba com o talento de ator o físico inadequado para interpretar Erasmo Carlos  — Foto: Divulgação

Chay Suede driba com o talento de ator o físico inadequado para interpretar Erasmo Carlos — Foto: Divulgação

Essa amizade é o glacê sentimental de filme feito com a proposta de oferecer entretenimento. Tudo a ver, afinal, com o conceito da Jovem Guarda, que, a despeito de toda a aura de rebeldia, apenas traduziu e aclimatou para o Brasil uma revolução de costumes que já acontecia em todo o universo pop.

O único real (e grande) legado da Jovem Guarda foi o cancioneiro de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, construído em parceria aberta em 1963 com o rock Parei na contramão.

Ouvido em maioria nas vozes dos atores do filme, esse cancioneiro aumenta o poder de sedução de um filme cuja narrativa é interrompida justamente quando, após se sentar perdido à beira do caminho, em 1969, Erasmo Carlos reencontra o rumo e segue pela contramão, na direção oposta de Roberto Carlos. (Cotação: * * *)

 — Foto: Editoria de Arte / G1 — Foto: Editoria de Arte / G1

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Fonte: G1