Teresa Cristina canta Noel Rosa com a beleza e a fluência do disco de Cartola

por:em março 9, 2018

oi dando voz ao cancioneiro existencialista de Paulinho da Viola que Teresa Cristina despontou no mercado fonográfico em 2002 com álbum duplo que projetou a cantora carioca além do circuito de bares e casas de shows da Lapa, bairro do centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ) que jogou luz sobre jovem geração de sambistas e chorões no fim do século XX. Só que, em 2002, Teresa Cristina ainda não era a cantora escolada que se ouve no álbum Teresa Cristina canta Noel (Uns Produções / Altafonte), lançado hoje, 9 de março de 2018, dando início a projeto que inclui turnê nacional programada para estrear na segunda quinzena do mês no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal tanto da artista quanto do compositor enfocado no disco, Noel Rosa (11 de dezembro de 1910 – 4 de maio de 1937) , herdeiro e depurador das tradições do samba seminal do bairro carioca do Estácio.

Teresa Cristina canta Noel é o segundo título de trilogia de songbooksdedicados pela cantora a compositores de samba nascidos na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Iniciada com o sensível álbum Teresa Cristina canta Cartola (2016), lançado há dois anos, a trilogia será encerrada com disco com a obra tão mórbida quanto poética de Nelson Cavaquinho (1911 – 1986). A receita do disco de Noel é a mesma do vitorioso sambabook de Cartola: à voz maturada de Teresa, foi adicionado somente o toque virtuoso do violão de Carlinhos Sete Cordas.

De novo, a receita funciona. E nem tinha como dar errado. Se o repertório selecionado é primoroso, o que chega a ser óbvio em se tratando de um gigante na arte da composição como Noel, gracioso cronista de amores e costumes dos anos 1930, a cantora se põe à altura deste repertório. Seja gingando no ritmo e nas ritmas ágeis do samba Seja breve (Noel Rosa, 1933), seja versando com o sambista carioca Mosquito como se a embolada Minha viola (Noel Rosa, 1929) fosse um partido alto. Com toque que evoca o rigor erudito, o violão de sete cordas de Carlinhos tira Minha viola do original ambiente rural e refina a base de Não tem tradução (Noel Rosa, 1933) sem se afastar do terreirão do samba.

Teresa Cristina e Carlinhos Sete Cordas (Foto: Divulgação / Fernando Young)Teresa Cristina e Carlinhos Sete Cordas (Foto: Divulgação / Fernando Young)

Teresa Cristina e Carlinhos Sete Cordas (Foto: Divulgação / Fernando Young)

E, se o samba é a tristeza que balança, como dizia o poeta, Teresa Cristina é cantora grande ao expor essa tristeza que é senhora nos versos do enlutado Silêncio de um minuto (Noel Rosa, 1935), do samba Pela décima vez (Noel Rosa, 1935), do samba-canção Deixa de ser convencida (Noel Rosa e Wilson Baptista, 1935) – o título mais raro dentre as 14 composições cantadas por Teresa pela pouca quantidade de registros fonográficos oficiais (cinco, e todos pouco ouvidos) dessa música que tem letra escrita por Noel à revelia do parceiro Wilson Baptista (1913 – 1968), criador da melodia feita com outros versos – e, claro, da obra-prima que abre o disco, Feitio de oração (1933), samba-canção feito por Noel com o compositor paulistano Oswaldo de Almeida Gogliano (1910 – 1962), o Vadico, notável parceiro do Poeta da Vila por ter criado melodias tão belas, e por vezes tão tristes, como a de Feitio de oração.

A cantora Teresa Cristina  (Foto: Divulgação / Fernando Young)A cantora Teresa Cristina  (Foto: Divulgação / Fernando Young)

A cantora Teresa Cristina (Foto: Divulgação / Fernando Young)

Em repertório escolhido com o mérito de fugir dos sucessos mais óbvios de Noel, embora sabiamente tampouco a cantora os tenha evitado de forma radical, Quando o samba acabou (Noel Rosa, 1933) sobressai como mais um veículo para Teresa Cristina expressar a melancolia tão entranhada em canto que, em contrapartida, se mostra sem (toda) a verve necessária para encarar o samba Gago apaixonado (Noel Rosa, 1930) e o samba-choro Conversa de botequim (Noel Rosa e Vadico, 1935), equivocadamente escolhido para ser o primeiro single do álbum gravado sob a direção musical de Caetano Veloso.

Detalhe tão pequeno de disco que transcorre envolvente pela total sintonia da voz da artista com o classudo violão de Carlinhos Sete Cordas, hábil o suficiente para soar seresteiro em O X do problema (Noel Rosa, 1936) e para gingar no ritmo de Positivismo (Noel Rosa e Orestes Barbosa, 1933) e de Onde está a honestidade? (Noel Rosa, 1933), samba que soa atualíssimo face aos escândalos cotidianos sobre patrimônios acumulados de forma ilícita por políticos do Brasil.

Enfim, por mais que a trilogia de sambabooks de Teresa Cristina impeça o registro da obra autoral dessa cantora que foi se revelando inspirada compositora a partir do segundo álbum, A vida me fez assim (2004), o fato é que o álbum dedicado ao cancioneiro de Noel Rosa é tão bonito e fluente quanto o disco com a obra de Cartola. (Cotação: * * * *)